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Outubro 26, 2006

Trama

Nela
o atalho
o caminho incerto
o perigo e o gozo

Em mim
o segredo
o mapa
e o que nela encontro
marco
e o que com ela guardo
calo

Nela
o que em mim se esconde
flui
lateja

Com ela
o que de mim escapa
penetra

Em mim o avesso
o jogo
e o que com ela jogo
perco
e o que ela me tira
o fôlego

cris: 22:31

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Outubro 20, 2006

Souvenir

Em algum lugar eu guardei
um pedaço do teu tempo que era meu
além de alguns contornos do teu corpo
que você me deu
depois de tantos olhares silenciosos
depois de beijos intermináveis
depois que as tardes quase viravam noites
eu guardei em algum lugar em mim
para lembrar depois
em memórias que tomam formas
queimam e dão vontade de ser presente...

cris: 17:59

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Outubro 11, 2006

Nação

Não há quase nada de novo no mundo

No gigante sobre nós, os períodos se revezam
entre o bem e o mal
no modelo maniqueísta fácil de usar

No velho mundo as fronteiras de desfazem
mas os preconceitos não

A leste uns testam bombas de muitos quilotons
antigo artefato da guerra fria
e preparam o terror

Ali do outro lado do mar das tormentas
continuam fome, aids, miséria, esquecimento, extinção

Ainda temos os caudilhos da latino América
e eu continuo sem entender o que é Guantánamo

Mas aqui, sim, aqui no país tropical, bonito por natureza
tem algo muito novo e muito importante acontecendo
e precisa de mais tempo pra ficar mais forte

É a mudança mais significativa que uma nação tão jovem
já impôs as camadas dominantes
aqueles que por séculos tiveram a posse dos nossos sonhos
e da nossa voz

Aqui entre cafuzos, mamelucos, mestiços, mulatos, negros,
brancos, amarelos, tupis e todos os povos do mato

Aqui a esperança vencerá o medo!


cris: 20:23

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Outubro 9, 2006

Quinta

Era quinta
e o sol esturricava a cidade
queimava as avencas do balcão da vizinha da frente
encharcava as camisas dos engravatados
fazia com que o azul do mar e do céu
se fundissem e derretessem
embaçando o horizonte

Eram quentes e lindos os dias naquele lugar
tanto que enfeitiçavam com suas primaveras escaldantes
e com seus verões de belas mulheres seminuas
desfilando seus contornos
pelas calçadas desenhadas de Copacabana

Era cedo
e o tempo quando é quente anda devagar
quase desiste de passar

E era ela que vinha
suada
a pele tão clara parecia nem ligar pro sol a pino
ela parava
e sentia o cheiro do sal que o vento trazia
a maresia que entrava pelos poros
e ela queria tudo naquele dia
era quinta
era o dia

E da minha janela eu via
era ela que chegava

Era ela
que caminhava entre os carros
segurando seu chapéu vermelho de abas largas
sorrindo mordendo a boca
parecia que desejava

Era ela que percorria a avenida
longe das sombras das marquises
na cadência de algum samba que cantarolava

Era ela quem eu esperava
e que entrava em minha casa
me beijando a boca
e me pedindo água

Era ela que em mim ardia
naquele dia
naquela quinta...

cris: 18:36

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Outubro 4, 2006

Lendemain

Agora
o que ainda nem sonhamos
o que já não queremos
a página lida do livro
o próximo parágrafo
o que esquecemos
o que desejamos
é assim
passa...

Amanhã
a hora
a tarde
aquilo que não foi dito
a palavra na garganta...

O dia seguinte
o que virá
e contamos
e vamos
a pele que enruga
os olhos que embaçam
distâncias não mais vencidas
e corre
escorre
incontrolável e impressionante
outonos
tantos...

É assim
e depois
as lembranças
ficam em algum lugar
em diários
em cartões-postais
em versos nas gavetas
no cheiro do papel
é o tempo
tanto tempo
e passa...


cris: 23:44

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