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Julho 31, 2005
Assimetria
Tinha uma textura branca que refletia em mim
era a juventude dela
era o novo e o recente
era o cheiro de presente
de agora
Dela exalavam
o imediato e o instantâneo...
Meu corpo deslizava nela de um jeito demorado
escorregava
entre os gomos delicados de suas pernas
resvalava
entre a polpa arredondada de suas nádegas
Tinha uma forma aguda
era o novo ciclo dela
o moderno
o real
e em sua pele
sem marcas
sem vincos
meus olhos se perdiam
Dela desprendiam
o breve e o passageiro...
Tinha um tempo veloz e transitório
que me prendia
entre os dosséis de sua cama
entre as palmas de suas mãos
em seus beijos loucos e efêmeros
Dela escorriam
o ilusório e o vão...
Meu corpo ávido e sôfrego
atingia o dela de um jeito forte
e colidiam poros
penetravam hastes que de mim brotavam
era lascivo
era desejo
era a ardência do arrebatamento
que descompassava
desnaturava
e criava em mim outras partes
que nela eu atravessava
Tinha um desequilíbrio
a oposição perfeita que comandava a vontade
o movimento que dominava o gozo
o desespero
e a aflição
Dela escapava a certeza
E de mim o não sei não...

cris:
19:31
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Julho 25, 2005
Random
Ah, look at all the lonely people...*
Foi ontem ou hoje que um inocente foi morto?
Foi agora mesmo
Deu no jornal
Escutei o grito
Foi ali
Foi aqui
Foi em Abbey Road...
Silêncio
Quiet
Tenho medo, and you?
Aqui também detonam bombas!
Aqui também disparam pistolas cintilantes!
Em todo lugar explicitamente se mata
Não há diferença entre as caçadas e as chacinas
Entre nós o terror e as raposas
Estamos todos envolvidos
Todos em estado de sítio
O mundo em emergência
E vocês nem sabem do lixo ocidental...*
Um inocente foi morto agora!
Ah, look at all the lonely people...*
executado com oito tiros no metrô de londres, jean charles de menezes, um homem inocente...
*autores acidentais - lennon e mccartney - lô borges, fernando brant e márcio borges
cris:
18:08
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Julho 23, 2005
Pensadores Anônimos
Ela era uma mulher quase comum e pensava. Seu nome era simples e naquela noite ela confessou seu vício. Ela era uma pensadora e por isso vivia angustiada, desesperada, desesperançosa, surtada, pesarosa, envergonhada, aflita.
Mas naquele dia ela não havia pensado...
Não se informou, não passou nem perto de banca de jornal e nem ligou a tv. Não discutiu nada com os seus pares e mesmo em necessidade absoluta não questionou nada.
Ela sabia que era um indivíduo adicto e não podia sequer imaginar ter informações, isso lhe faria vacilar... Até pequenas meditações eram perigosas, realmente transcender era nocivo...
Durante muito tempo ela caiu na tentação das reflexões, das idéias e se envolveu com o perigo das cogitações. Ela vivia entre diálogos intermináveis sobre a vida, a política e o amor... Consumia Nietzsche, Deleuze e todos os que inquiriam sobre algo, sobre a vida ou faziam por onde. Ela era encharcada de Baudrillard, vivia misturada em simulacros e com gente estranha que distribuía conhecimentos antigos como Platão, Sócrates e Voltaire...
Mesmo durante os anos mais duros não ela não se privou da droga maldita do tino ou da busca dele... Se envolveu com o tráfico de elaborações, distribuiu clandestinamente Marx e seus seguidores.
Mas naquele dia ela não havia pensado...
E quase começou a se orgulhar disso... Ela acreditava que todo o esforço seria recompensado... Talvez ela recuperasse seu sono, perdesse uns quilos pela falta de ansiedade e quem sabe até conseguia viver bem assim sem as suas cismas...
Antes ela era usuária do raciocínio e da lógica, isso lhe tornou dependente de conteúdos e ela buscou em Kant e em Konder mais e mais... O vício do pensamento era tão poderoso que nem Derrida lhe bastava, ela precisou entrar em becos e escuridões para se fartar de Lukács, Adorno e Marcuse... Sem saber ela estava para sempre regida pela força dessa conduta abominável da criação e do desejo...
Ela contou reservadamente que as crises de abstinências são terríveis! Dores pelo corpo que de tão profundas vazavam até a alma... Sua privação chegava a cúmulos febris... A ela era restrito até o Chico, nada de Buarques, ela afastava de si qualquer cálice!
Tinha dias que ela pensava que não ia resistir e escorregava pelos meandros das pequenas doses de formulações... Seu equilíbrio era somente cinestésico, músculos e membros de acordo com a lei da gravidade... Assim compensava as ausências suando em esteiras eletrônicas e esquecendo de quase tudo nas bicicletas ergométricas... Para ela lhe restou o culto ao corpo, assim embotava seus neurônios e ativava endorfina suficiente para anestesiar maratonistas... Ela precisava distribuir urgentemente suas energias cognitivas pela sua musculatura...
Mesmo lembranças podiam ser destrutivas no movimento de busca do nada, do vazio intelectual, elas podiam desencadear vontades agudas de concentração e os processos mentais podiam se realizar atraindo compreensão, entendimento...
Sim era bastante tentador...
Mas naquele dia ela não havia pensado...
E isso ela devia em parte a sua velha avó que na sua imensa sabedoria desde cedo lhe dizia que 'a ignorância era a prima irmã da felicidade...' Por isso ela precisava do desconhecimento total só assim sua nova condição de alienada podia ser o caminho mais digno diante de tanta lama, tanta hipocrisia e tanta dor...

cris:
19:31
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Julho 12, 2005
Rio
Parei de pensar em
malas
dólares
dízimos
até dei um tempo
na minha vergonha
por estar vivendo
nesse momento
tão triste
e tão revoltante
onde parte de convicções
de sonhos
de futuros
foram destruídos
pela ganância
e pela velha
sede do poder...
Abri a janela bem cedinho
e aí percebi a minha felicidade
diante da vida...
Meu país no caos da corrupção
mas a minha cidade belíssima
entre as nuvens azuladas do inverno...
Nem tudo está perdido!

cris:
19:42
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Julho 7, 2005
London London*
Nem em mil anos será possível
explicar ou entender
essas violências que nos invadem
pelos olhos
pela pele
pela nossa infelicidade pós-moderna...
"I am lonely in London without fear"
E não há agora outra saída
vivemos todos sobre os escombros
de um sistema tão cruel
que mesmo carcomido
por suas doenças
resiste nos seus egoísmos
multinacional
global
capital
e ainda procria
rebentos
crias desorientadas
acuadas
atormentadas
tantas vezes famintas
de pão e de chão
nelas vive o terror
e ele se espalha...
"And people hurry on so peacefully"
Nem tentando ignorar a vida lá fora
nem desligando tudo
mesmo assim não estaremos protegidos
nem eles estarão desarmandos...
"While my eyes
Go looking for flying saucers in the sky"
7 de julho de 2005 - atentado terrorista em londres - estamos todos feridos!
* música incidental - london london - caetano veloso
cris:
19:26
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