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Janeiro 28, 2005

A roda da saia rodada da porta-bandeira


O calor dentro daquela loja estava insuportável, mas ela adorava sentir o suor escorrer pelas costas. Ali entre paetês e purpurinas ela reinava linda mesmo ensopada... A casa Turuna era um de seus esconderijos, um de seus paraísos... Tudo era convite, leques, pulseiras, flores de plástico. Ela colhia adornos mesmo sem saber onde iam adornar. Isso era seu vício, um deles é claro!

Durante o ano seus dedos longos e decorados por anéis prateados em tamanho monumental, vasculhavam os escondidos do Saara. Seus olhos desvendavam os segredos da rua Buenos Aires, tecidos, passamanarias, rendas, tesouros que ela ia guardando, inflando dentro dela e das coisas dela. Não havia mafuá esquecido, o mais distante era sempre ali e ela conhecia. Seus enfeites, mesmo os mais improváveis podiam a qualquer momento servir para um acaso ou um caso e até no caso de...

Todos os dias ela se preparava para uma festa, a maior de todas, a festa pagã, aquela que a cada batida do surdo queimava seus preceitos mais íntimos. Ah, e esses ela tinha vários, de vários tons e combinava todos nas platinelas dos pandeiros e no toque dos tamborins de sua bateria. E assim todos num equilíbrio perfeito cabiam em seus relicários espalhados pelo chão da sua casa. Oxum, Nossa Senhora, Escrava Anastácia entre velas, espelhos, oferendas e os Arcanos do Tarô.

Naquele dia causticante em que o chão fervia, ela decidiu enfim sua fantasia. Dava pra sentir pelo seu jeito de andar no asfalto da avenida Passos a intimidade dela com a pista e depois então de ter resolvido as cores, o rodado da saia e as fitas ela parecia evoluir, coisa de quem sabe como agradar com sua felicidade estampada num sorriso, artista.

De volta ao ar condicionado, ela coloria o cinza daquele lugar hermético e liso. Ela, suas cores e luzes criavam cantos e reentrâncias onde só se permitia o reto. Ali naquele lugar selado ela sentia seu tempo parado e se amparava na dinâmica de seus números e letras. E ela guardava, anotava, escondia e dissertava nas páginas de suas desmedidas cadernetas. Seus dias grifados, marcados. Encontros, desencontros, doutores e estórias de seus amores. Sublinhava também seus dias de graças e farsas, os de deleite e os dementes também. Ela anotava tudo, suprimentos, medicamentos, argumentos pra vencer mais um dia longe do lamento da cuíca...

Ali naquele lugar de mármore cada minuto seu tinha decisão envolvida, tinha carga para todos os lados. Trabalho e rotina. Então ela criava um vão de segurança, uma distância vital que a equilibrava e a protegia entre a suas decisões exatas e a roda da sua saia de sua fantasia. Nos dias mais difíceis de suportar as geleiras e a solidão seus pensamentos eram vadios, profanos e se perdiam entre lantejoulas e lamês...

Naquela noite ela saiu do trabalho e resolveu voltar para casa pelo Aterro do Flamengo, queria tempo pra pensar em panos, miçangas e orgulhos. Queria ver o mar e saldar sua rainha Iemanjá... Chegou em casa olhou pro Cristo sobre sua cabeça e sorriu. Subiu e naquela noite nem dormiu, passou as horas entre agulhas e linhas construindo, bordando sua fantasia, aquela que em poucos dias ia desenhar círculos no ar. Relembrou antigos carnavais e contraditoriamente entre um gole de vinho e os acordes da material girl ela pensava e se deliciava no pop de seu borderline...

Para ela estes momentos eram místicos, espiritualmente alegóricos, como os carros de seu bloco, alguns eram como altares e ela devota, dedicava à eles algumas alegrias profundas.

Madrugada e ela ainda acordada terminou sua veste, seu capricho e vendo o sol aparecendo entre as árvores do Jardim Botânico cantarolou o samba já decorado e preparou um café forte. Ela precisava de excitação e cafeína em grandes quantidades para agüentar o dia do ensaio geral até o final.

E nesse dia ela se esbaldou e levantou a poeira do chão da quadra revelando partes de sua saia rodada. Pronto ela estava preparada e entregue aos prazeres do corpo em suas danças, em seus movimentos quase lascivos que desprendiam olhares de todos, ela bailarina urbana portando o estandarte, poderosa de ser ela a escolhida e a única repleta de privilégios...

E o dia do desfile chegou. Domingo, concentração, batia forte seu coração, seu corpo tremia com a exaltação do samba, ela sentia nela o grito das caixas de guerra e a resposta dos repiques, não havia som que ela não distinguisse, todos faziam parte em seus sentidos. Ipanema, e na rua inundada de foliões ela mergulhou em seu melhor personagem. E ali entre ela e a eternidade só havia a felicidade de rodopiar sentindo o suor escorrer pelas costas e o prazer de fazer rodar a roda da saia rodada da porta-bandeira....


bloco de rua - joão barcelos

cris: 07:54

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Janeiro 26, 2005

Save Our Souls

Tá tá legal
Me diz então o que fazer?

Você que sabe tudo
que sente tudo
que não se perde
que sabe onde estão
as chaves e o isqueiro
que eu sempre perco

Diz como é que se faz
pra não acabar
esse amor
pra segurar
o momento
que entre nós
tá pra passar

Me diz
como fazer
pra não doer
pra parar de doer
Diz pra mim
que eu acredito
me faz crer
me faz querer
outra vez
eu e você...

cris: 17:03

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Janeiro 21, 2005

Front Page

Os computadores vão parar
Vão parar na virada do século
Que caos !
Fico me perguntando se isto
vai piorar a vida no Senegal
ou se em Uganda mais pessoas vão morrer
de fome, de medo, de esquecimento...
Fico aqui pensando se com isto
vai aumentar a prostituição infantil
na Tailândia ou em Pernambuco
Será que com isto os Sem-Terra
vão ficar mais isolados e emboscados
No Pontal
No Pará
No Paraná ...

A estação orbital Russa tá na pior
A bolsa de Hong Kong despencou
Fico intrigada em saber se com isto
os Yanomamis vão conseguir sobreviver
ou vão morrer
de fome, de medo, de esquecimento...

Um presidente seduziu a secretária
Um presidente encheu a cara de vodka
Fico cismada se com isto
meu amigo vai sobreviver à síndrome,
ao virus
ou vai morrer no esquecimento...
Mais um, outro mais...

Os computadores vão parar
E o mundo também?
Fico aqui matutando se com isto
vai piorar a dor dos que vivem oprimidos
entre o Sinai e Jerusalém
ou se vai ser pior viver em Bagdá
Difícil não pensar naqueles
que vão voltar para Quixeramobim
mais pobres do que antes dos computadores pararem
Não dá para esquecer daqueles que
vão ter que desistir de tudo
ou do pouco ou do quase nada...

Está provado cientificamente pela Universidade
de Michigan ou Boston ou sei lá, que:
"O homem tem mais neurônios que a mulher"
E daí? O que isso pode significar?
Mais inteligência?
Mais sensibilidade?
Fico aqui pensando com os meus,
mesmo em desvantagem,
se isto vai mudar a vida dos que não entendem nada disto
Daqueles que nem fazem parte das notícias
Destes que só são a base das estatísticas ...
Os computadores vão parar na virada do século
Que se dane Wall Street !

1999 - meu texto esquecido numa gaveta desde o século passado!
e os computadores não pararam...


cris: 08:58

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Janeiro 12, 2005

Sexo ótimo

É aquele que
acontece
quando o
superlativo
fica absoluto
de tão bom
de muito bom
de boníssimo
e gozamos
às vezes até
juntos
que é o melhor
possível...

cris: 12:25

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Janeiro 3, 2005

Vacances

Pelo espelho
a varanda refletida
o azul
o verde
e o contorno
do teu corpo na rede
me faziam sorrir

Simples e sonolento
o dia passava entre nós
quente
entre teus dedos
entre minhas pernas
ardente

Maresia
mescalina
meu suor
na tua boca
em você
tudo me alucina
tudo me preenche
você meu continente

Pela janela
a vida lenta
morena
e no teu corpo
as marcas do sol
me faziam querer
teu sabor
o sal da tua língua
em você
tudo me fascina
tudo me asfixia
você minha ilha

Pela janela
a noite clara
a lua rara
teu corpo no meu
me extasia
em você
tudo movimenta
minhas águas
meus rodamoinhos
você minha praia
meu esconderijo
pedaço de terra
meu istmo
península ensolarada
meu sonho do sempre
você meu paraíso...


paul gauguin - 'femmes de tahiti' (1891)

cris: 12:12

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carmim