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Novembro 23, 2004
Trégua
Eu e ela
entrincheiradas
em linhos
de lençóis perfumados
pausa e descanso
depois de tanto
dano
depois de tanto
prazer
Entre nós
era assim
guerra
desastre
e torpor
Nada que fosse
doce servia
nada de licor
nossa sede
pedia tequila!
Eu e ela
ensurdecidas
em decibéis
e frenesi
Perdidas
em nosso leito
repleto de beijos
e árias de Callas
Escondíamos
eternidades
pelas frestas
pelos poros
pela casa
Entre nós
era assim
fundo
profundo
e assustador
Nada que fosse
suave podia
nada de crepom
nossa escrita
era na pele
em tatuagens
de nossas mãos
nas ancas
nas nádegas
nos quadris
Entre nós
era assim
peleja
combate
e abate
tudo que arde
tudo que não tem
direção
Entre nós era assim
vertigem
vertente
vinho quente
acidente
e paixão...

cris:
13:40
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Novembro 16, 2004
Noção
Não posso dizer
que escrevo
porque preciso
ou que escrevo
porque é preciso
Escrevo
porque vomito
e regurgito
em letras
o que sinto!

cris:
15:31
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Novembro 10, 2004
Janela
Todos os dias eu te procuro
vou até a minha
janela que dá pro mundo
e verifico cada detalhe
olho alguns olhos
alguns olhares me fitam
e pra outros eu não dou
nenhuma importância
eu procuro os teus olhos...
Algumas vezes só te vejo
outras eu te encontro
mas sempre há entre nós
uma distância sem dimensão
Já houve vezes
de eu te olhar por horas
e nem ver o tempo passar
e sempre foram olhares silenciosos
daqueles de quando eu ainda imaginava
de quando eu ainda desejava
escutar algum som
o teu som...
Já foram tantas as vezes
que me peguei sozinha
te esperando passar
que aprendi ter paciência
e a reparar os contornos
e as cores desse lugar que vejo
pela minha janela que dá pro mundo
Todos os dias
eu te procuro
às vezes tenho a impressão
que nunca mais vou te ver
e que você vai escolher outro caminho
outra passagem
um atalho novo
E vai ser assim sem avisar
nesse dia eu vou abrir
a minha janela que dá pro mundo
e nunca mais vou te encontrar...

cris:
08:49
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Novembro 5, 2004
Duelo
E eu ficava com raiva dela
e era aquele tipo de raiva
que tinha lágrima envolvida
tudo porque o jeito dela
me alterava por dentro
Ela falava quando não devia
ela falava o que não devia
e se escondia
numa prepotência poética
que me tirava do sério
Com ela eu tive
as maiores e mais quentes
discussões sobre tudo
principalmente
sobre quimeras
sobre ilusões
pobre de nós sonhadoras
Ela invadia todos os meus limites
e tinha um jeito
de querer ter a razão em tudo
de saber de tudo
e me enfrentava
e me fazia vociferar
frases quase obscenas
depois olhava suave
me reprovando
como se não tivesse
acendido meu estopim
Eu ficava com ódio dela
quando ela me sorria
seu sorriso vitorioso
depois de grandes pelejas da retórica
e eu acabava em silêncio
porque sabia que
era ela a dona das palavras...
Um dia eu descobri
que já não podíamos mais
nos privar de nossas rixas
e que não tínhamos
qualquer noção do perigo
que nos rondava
nesse dia eu percebi que entre nós
um círculo se fechava
Já não bastava o desafio das palavras
os corpos desejavam confronto
encontro
e era uma vontade tão grande
que já não cabia em nossas desavenças
ela me queria
ela me incitava
e me colocou em xeque
e me abriu a guarda
e me venceu
caindo em meus braços
apaixonada...

cris:
08:56
...
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