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Setembro 30, 2004

Oral

Teu visgo
como um guizo
me alerta
me indica
o caminho e a direção
entre os aromas
do teu mel...

Vem
abelha-rainha
destila
teu veneno doce
em meus lábios de veludo

Vem
me entrega
teus orvalhos
tuas relvas
me deixa perdida
em teu jardim
e me leva
onde eu possa ir

Vem
deságua
e molha as frestas
de tua colméia
abelha-de-fogo
guardando em ti
o frescor de minha
saliva perfumada
pelo sabor das flores de laranjeiras
e a textura de minha língua
e entorpecida pela vontade
de te engolir...

Vem
e por fim
me aperta entre o sulco
de tuas pernas
desfrutando do meu desalinho
usufruindo do meu desejar

Vem
prepara teu desespero
e em minha boca
despeja teu caldo
o melado do teu gozo
o líquido valedouro
a tua geléia real...

cris: 20:25

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Setembro 20, 2004

De como perdemos anéis e isqueiros

Era tarde
A noite tinha sido longa
vinho, cigarros e baton
Já dava para imaginar o dia seguinte de ressaca
E ainda precisava digerir uma centena de palavras
desconexas e anoréxias
Os vômitos de uma noite de verão!

Então ela entrou no toilette, olhou no espelho
e desistiu na hora de retocar a maquiagem
Preferiu só lavar as mãos
e a água fria daquela noite gelada quase a despertou
e por pouco ela não partiu
Mas era tarde e ela precisava ir...

Antes de sair ela olhou mais uma vez no espelho
e dessa vez por um longo momento
Inconscientemente ela abriu a bolsa
procurou um cigarro e acendeu

Era um Zippo prateado que refletiu
a luz branca do toucador em seus olhos negros
e ela ficou ali parada olhando
e deixando a fumaça rodear seu rosto como uma neblina

O que será que havia naquele monte de pensamento
que refletia cinzas no espelho?

Depois daquele longo momento
ela sorriu como quem soubesse de tudo que ia fazer
pelo resto da vida...

Jogou o cigarro na pia, abriu a porta e saiu
Atravessou a sala sombria, deserta
Escutou a última frase da canção que tocava no quarto
iluminado pelos candelabros de barro de Guadalajara

'Que tú nunca mereciste lo que tanto quise dar'

Jogou as chaves da porta
na cadeira Barcelona que ela amava
meteu a mão na maçaneta
olhou para trás e ainda pensou em dizer
um tchau redondo e preciso
mas não pode
bateu a porta
ganhou a rua e se foi

No caminho, que era longo
ela foi deixando para trás
não só um monte de sonhos
mas também suas canetas coloridas
suas calcinhas de algodão
seus beijos
seus anseios
suas mousses de maracujá
suas caixinhas de marchetaria
onde guardava suas imitações de turmalina
e seus anéis de prata peruana

E aí sentiu falta do mais querido
aquele com uma rosa incrustada
difícil de achar
Ela tinha esquecido no lavabo do toilette
e não ia poder voltar para pegar...

A madrugada foi passando e ela foi se desvencilhando
de uma porção de prazeres profundos
Nem todos iam fazer falta
e alguns já tinham vazado demais

Ela lembrava dos braços
dos abraços
dos lençóis amarelos
do ventilador de teto
e do medo que às vezes sentia
dele cair sobre a cama
sobre elas

Ela lembrava de coisas
tão espalhadas
tão desesperadas
tão banais

E no caminho, que era longo
o dia foi chegando
lilás
laranja
entre montanhas
misturado nas roupas penduradas em varais de alumínio
nos quintais pós-modernos
entre o sono da gente das marquises
dos que não têm dia

Manhã
e ela ainda não havia chegado
era longo seu caminho
e ela nunca havia terminado
sempre ia até o meio
e voltava porque sentia que amava
não podia partir
sempre esperava para ver se a vida mudava
se um sonho só bastava

Mas não bastou...

E agora lá estava ela
quase distante
quase chegando

Parou para tomar um café
sorriu para o garoto do jornal
pediu uma média com pão francês e manteiga
Comeu e depois sentou para ouvir os barulhos da vida
começando bem cedinho
pegou o cigarro mas não pode acendê-lo
tinha deixado o isqueiro no toilette junto ao anel
e nem valia a pena voltar
Decidiu parar de fumar!

Aí ela levantou
atravessou a pequena rua de mão-inglesa
sem qualquer cuidado
sem nenhuma atenção
respirou fundo e ao fundo
na sua frente
exuberante e azulada
a Baía de Guanabara
pronta para realizar todos os desejos
a Cidade Maravilhosa
repleta de segredos e respostas
pronta para aliviar e aliciar
desde aqueles que precisam de sal
para conservar amores apodrecidos
até aqueles que dependem de sol
para alimentar amores mundanos e vadios

Então ela pensou que de repente
mesmo diante de tudo que nela estava ausente
mesmo sem ter ainda chegado ao destino
mesmo sem ter um presente
mesmo assim o dia havia começado bem...

cris: 23:48

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Setembro 14, 2004

Assez!

Estávamos ali
eu e a minha vontade
de te quebrar a cara
eu já tinha te xingado de tudo
e teu nome já estava
me dando enjôo

Liguei o rádio
bem alto
e fiquei na varanda
esperando o tempo passar
e a raiva também

Aí peguei meu moleskine
nessas horas sempre vem
uma inspiração
uma vontade
de ser poeta
e deslizar palavras
de dor ou de amor

Então datei e escrevi:

cris: 16:40

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Setembro 10, 2004


textos meus publicados no blog 'uva na vulva'

cris: 21:06

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Setembro 8, 2004

Ausências

Às vezes as palavras me escapam
e não há como dizer nada
Aí eu fico aqui de costas para o mar
pouco ligando para o céu azul-marinho do Rio
só esperando esse tempo passar...

Fico assim de um jeito indolente e quieto
pouco me importando com o barulho
da festa que está rolando no terceiro andar
E ainda penso - Aumenta o som !

As palavras andam fugindo de mim
e tudo parece em silêncio...
Então vejo filmes preto e branco às duas da manhã
e aqui de frente para o Cristo Redentor
continuo fazendo as mesmas promessas
e eu que nem sei nem rezar...

E juro
que vou parar de fumar
que vou fazer ginástica
dieta
e que vou te tirar da cabeça
te esquecer mesmo!
Mas só amanhã
Não, só segunda-feira
que é o dia de mudar a vida...

Às vezes as palavras me abandonam
melhor assim não preciso pensar em nada
só numa maneira de esquecer
teus olhos negros
e tua boca carmim em mim...

E fico aqui desse jeito
o mesmo que você deixou
guardando os mesmos segredos
e as mesmas histórias
que não consigo nem mais contar...

As palavras se escondem de mim
e eu não tento dizer mais nada
só fico esperando que em mim aconteça
o grande desastre
o cataclismo
- Então que venha o vendaval!

As palavras minguam em mim
parecem tão fracas e desérticas
e a cada dia se tornam mais patéticas e ridículas...

Me sinto às vezes ridícula
Eu e as minhas palavras
que se calam em mim
que me decepam
que me capam
e que me deixam só...


cris: 18:09

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Setembro 5, 2004

Espécie

Olho-me
e busco em mim
a minha parte
terrível
violenta
funesta

Será que existe
em cada um de nós estes nós?

Observo-me
e no espelho
investigo meu olhar
meu jeito de ver a vida
tento entrar
pela janela de minh'alma
e encontrar lá
a minha porção
intolerante
implacável
nefasta

Será que existe
em cada um de nós todos os nós?

Fito-me
e cada vez
mais perto de mim
procuro
fuço em meus escondidos
farejo em meus abrigos
antiaéreo
anti-reflexo
anti-roubo
anti-ruído
E mesmo assim
não posso ouvir
os gritos que vêm em mim
como disparos
e que me acertam
desde o baixo-ventre
até meu coração despedaçado
até minha existência
tão precária

Será que existe em mim tantos nós?

Encaro-me
e a cada silêncio meu
vejo em outros olhos
todos os meus nós
todos os nossos nós
e eles são nocivos
e estão no íntimo
estão em nós...


3 de setembro de 2004 - Beslan, Rússia - a Barbárie está em nós...

cris: 09:54

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Setembro 4, 2004

Simplicidades

Eu preciso algumas
coisas básicas para ser feliz
como por exemplo:

um par de tênis novos
da fly london
um moleskine sem pauta
para registrar minhas viagens
ao oriente
um telescópio
para te ver pelada
da janela do meu quarto
um mini-cooper vermelho
de capota branca
para dirigir em Paris no outono
ao teu lado...

E quero também
um beijo teu
na minha boca
dentro da padaria da esquina
comendo pão-doce
Um beijo cheio de açúcar cristal
e desejos
Depois te pego no elevador...

Tudo coisa simples!

Então por isso não entendo
por que dizem
ser tão difícil
encontrar a tal felicidade...

cris: 19:52

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Setembro 2, 2004

Curvas

Eu vinha numa
velocidade tamanha
que se precisasse
colocar o pé no freio
eu capotava
e precisei...

Rolei ladeira a abaixo
e me ralei até o queixo

Eu estava mesmo
em rota de colisão
e me arrebentei

Foi cinematográfico!

Mas foi bom
para poder ter histórias
para contar no bar
e ganhar tônus
para a próxima
que vai me embriagar
e me fazer perder
outra vez
a direção...

cris: 10:53

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Setembro 1, 2004


...totalmente inadiáveis...

cris: 17:15

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carmim