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Agosto 27, 2004
Visível
Eu sou
mulher
e na vida
descobri meu par
olhando no espelho
e percebendo
nos meus detalhes
onde meus desejos
se escondiam
Eu sou
mulher
e derramo
minhas sementes
que me vêm ciclos
sob terras desconhecidas
quase todas masculinas
onde não vão germinar
Eu sou
mulher
e não caminho
por atalhos
não me escondo
não me resguardo
olho no olho
quando falo
Eu sou
mulher
e entre elas
me deleito
com algumas eu me deito
com outras
construo multidões
Eu sou
mulher
então
me olha
me vê
pois eu te aceito
do teu jeito...
desenho - gustavo maia
cris:
22:11
...
Agosto 20, 2004
Iminente
Agora que não tem tempo
não tem hora
agora que está tudo riscado no chão
vem que eu vou te mostrar
meus mapas do céu
e o meio do meu céu
vou te contar meu segredo
meu nome
meu totem
e vou te dizer bem baixinho
que vou te lamber a nuca e os seios
até você sofrer de tanto me querer
Agora que não tem lado
não tem certo nem errado
agora que ficaram para trás as portas
e abrimos todas as janelas
deita que vou te trazer
delícias e tentações quase perversas
vou me deixar ficar entre as tuas pernas
e te contar meus sonhos
meus caprichos
vou te revelar meus esconderijos
e te beijar as mãos e os olhos
até tudo em você doer de tanto me desejar
Agora que não tem direção
caminho ou volta
agora que você está aqui
me deixa chegar bem perto
me beija como uma gueixa
submissa e febril
e espalha na minha pele
o odor agridoce
do teu visgo
que escorre
pelos dedos
entre os pêlos
entre nós
agora que não tem mais jeito...

cris:
15:08
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Agosto 16, 2004
Tríptico
Encontro
Essa é a parte mais importante!
A primeira
É onde se dá o querer saber
de quase tudo sobre o outro
e seus encantos
É a hora que os hormônios se combinam
em poções misteriosas
e começa a dança
a festa no corpo
Nessa hora já sabemos
quase precisamente
que nossa vida vai mudar pra sempre
nem que seja por pouco tempo
Encontrar alguém
que desperta suores e segredos
é o primeiro passo
para uma grande aventura
nas falésias da paixão...
Sedução
Vital
essencial
é a hora do coiote
da espreita
de borbulhas
de aromas
sorrisos
histórias de tentações
É nessa hora
que nos tornamos escravos
do nosso corpo quente
que só quer deleite
que só quer tocar
naquele outro
em desequilíbrio
por também tanto desejar...
Volúpia
E aí
a entrega completa
a falência múltipla
das resistências
a carência da prudência
são desligados os alarmes
são esquecidos os limites
e tudo em nós
fica sob risco
grave e iminente
Saltam as veias
desatam os nós
ardor pelos dedos
pelas mãos em tensão
o corpo em total intensidade
transborda pelas pernas
o licor do amor
de sabor quente
que invade tudo
entranhas
corpo
mente
não poupa nem a alma
dilacera e recupera
o ciclo permanente
da vida...

cris:
19:12
...
... o blog carmim tem também um 'fotolog'
para desfrutar dele, clique na câmera vermelhinha ali em cima
- é um primor!
cris:
18:25
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Agosto 11, 2004
Insônia
Tinha luz no quarto dela
naquela noite fria
Era a luz amarelada
do abajur da cabeceira
O foco dele desenhava
uns contornos na parede azul
e deixava algumas
transparências dela
aparecerem pra mim
Ela parecia tão real
e tão distante
Na sua mão um cigarro
e em volta dela a fumaça
que ela soltava sem tragar
Ela caminhava entre livros
e jornais espalhados pelo chão
recolhia alguns
empilhava outros
Às vezes ela ia até a janela
e eu sempre me espantava
de com ela era bela
Ela olhava a rua
os telhados do mercado
Às vezes parecia
que ela sabia do meu olhar
e observava cada janela da frente
tentando encontrá-lo
depois fechava tudo e sumia...
Mas naquela noite fria
ela não fechou a cortina
Chovia uma chuva fina
e o silêncio eram gotas
no toldo da varanda
Naquela noite fria
a solidão dela que
refletia na minha
me descobriu escondida
nas minhas sombras
que ela também via
Ela deitou na cama
recostou nos travesseiros
e me olhou
Foi assim que eu senti
Seus olhos em mim
como um convite
como um aceite
E me olhando
deixou que seu desejo
se transformasse
em seus dedos
e pelos dedos
me possuiu também...

cris:
11:28
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Agosto 6, 2004
Charge
Volto-me
e vejo o mundo
assoberbado de preocupações e febres
nem vulcões são tão quentes
quanto essa vida labiríntica
que se pratica por aqui
Eu tinha resolvido
esquecer essas temperaturas
esses aquecimentos globais
pensei em alienar
meu olhar e meu pulmão
só viver na perdição
do sexo e da paixão!
Em vão...
E vejo
estarrecida
esses periódicos
que transmitem histórias
em vários cadernos coloridos
o mundo
o país
a cidade
a maldade
a impunidade
os acordos
multidões
fome
exatidão numérica
para o desenvolvimento humano
sonda espacial em urano...
Ufa!
Escuto discursos ocos
repetitivos e senis
de repente nada mais é atual
faz-me lembrar
de matéria antiga de jornal-mural
do corredor do colégio
E são oratórias complexas
não no conteúdo mas na periferia
onde tudo é permitido
do estupro à vilania
e nos feudos da democracia
uns capinam nossos jardins
outros plantam leguminosas valiosas
poucos têm o que comer
mas habitam o mesmo lado
da margem do rio
entre grades e sapê
Eu pensava
que mais nenhuma dessas
casualidades capitalistas
atingiriam-me no peito
e não é indignação
é medo
é terror
é horror
o que invade minha pobre alma marxista
muito mais antiga e caduca
Olho de frente
essas pequenas catástrofes cotidianas
quase imperceptíveis a olho nu
a banalidade é óculos escuros
não temos tempo para colírios
então consumimos
rebelião
invasão
prevaricação
corrupção
desnutrição
O mau
vem como vírus
penetra, se instala e depois ataca
na lógica maniqueísta ocidental
e eu não quero o bem
essa moral não me convém
essa ordem eu não reconheço mais
não me importa
que meu exílio
seja o pior dos lugares
a solidão
por não poder entender o silêncio diante
de tanto poder
de tanta destruição...

cris:
14:04
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Agosto 3, 2004
Design
Revelo os pontos de interseção
entre a tua boca e a minha
e desenho na nossa cama
vigas poderosas
apoiadas na estática
dos nossos corpos rígidos
modelados para o gozo...
Nossas vidas
colunas delgadas
e alongadas num leito
de coordenadas cartesianas
buscam a profundidade
e o próximo elemento
o tempo...
Movimentos circulares
e desejos esgotam
nossas veias
nossas peles
determinam novas formas
e transformam nossos sonhos
em material
elástico
maleável
contornável
palpável
num conjunto impecável
com resistência vital!
Nossos corpos
plenos e exuberantes
somatório
da nossa energia radiante
da nossa freqüência absoluta
vibram em potências que percorrem
desde a nuca aos extremos
e nos penetram
em períodos de latência
e intervalos de desespero
Nossos corpos
simetricamente definidos
enfim unidos
pela atração dos nossos pólos
deduzem
espasmos como vertentes
preparam a formula do êxtase
combinam os pares do nosso prazer...

cris:
21:05
...
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