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Julho 30, 2004

Beijo

Minha língua
fala a tua
quando
nela toca
decifra
linhas
engole
voz
traduz
silêncios
enche
o corpo
de sinais
de desejos
molha
os meios
entre as pernas
entre nós...


cris: 16:32

...


Julho 27, 2004

Tolice

Pensei que derramando
meus veludos sobre você
me aqueceria com tanto calor nesse inverno
que embaçaria a vidraça da janela
e nem ia mais querer saber de primavera

Tudo errado...

Em mim a temperatura
subia de maneira inexplicável
não me ardia
e nada derretia
mas permitia
que eu sentisse
o gosto do teu perfume de baunilha
e teu tremor junto a mim

Pensei que transbordando
minhas rimas sobre você
me faria entender
naquele tempo tão curto
que deslizava entre nós

Nada disso...

Em mim as palavras sobram
esqueço que elas voam
e tudo entre nós se perdeu de uma maneira
incompreensível
quase singular
mas algumas palavras tuas
me concederam a honra da banca
e eu em vão esperei você me
mostrar teu jogo...

Pensei que ultrapassando
alguns limites da prudência
me aproximaria
do teu desejo
aquele que eu via
latejando na tua boca
quando você me olhava

Bobagens...
Eu andava mesmo pensando demais!

cris: 18:37

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Julho 26, 2004

Madrugada

E aí ficamos expostas
ao frio do cais
depois de horas
de orgasmos múltiplos
e aguardente da pior qualidade

Ali naquela promiscuidade
onde qualquer teor alcoólico valia
onde qualquer baton da avon eu lambia
e qualquer mulher me bastava

Ali era ela a vadia
que me decepava
partes que eu não tinha
que me dilacerava
membros que eu portava
que me envenenava
com seu ferrão
- ela minha abelha-rainha

Que me vinha
como uma messalina
trazendo luxo entre as pernas
cheirando a cravo
transpirando macela
e que envolvia o sexo
em tiras de organdi

Era ela a devassa
que me atravessava o peito e o colo
com suas flechas medonhas de volúpia e dor

Era ela a feiticeira
que abria fendas nas minhas mãos
para usar meu sangue
em seus feitiços obscenos
que se encaixava no meu corpo
como se de mim tivesse brotado
deixando em mim colado
pedaços dos seus amuletos
das suas pedras ciganas
dos seus metais de rituais
que me riscavam as costas
no momento do prazer

Ali no ancoradouro
dos barcos abandonados
no píer dos desesperados
estávamos nós expostas
a velocidade do tempo
depois de tanto torpor
e do pior conhaque do bordel

Ali no silêncio das nossas mazelas
nos abraçamos
eu e ela
e esperamos mais um dia chegar...

cris: 20:55

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Julho 23, 2004

Efeito

Não tenho tido espaço
para longos parágrafos
meu texto
cada vez mais
se encolhe
se acomoda
em linhas curtas
numa verticalidade
que busca estética
numa poética
de dor de corno
de balcão de botequim

Minha métrica
é banal
mas me engana
trapaceia
finge que tem cor

Dissimulada
me trás carícias
em seduções
velozes e efêmeras

Astuta
me oferece rimas
cada vez mais ricas
de desejos
de abandonos
cálice de vinho
para os que vivem
da retórica
e das dores de amor

Sacana
me fez acreditar nela
me fez fechar os olhos
pra sentir seus lábios
no meu peito
sentir seus beijos
inundarem minhas mãos
e aí entreguei
minha prosa caprichosa
que retocava com paciência
ao verso imprudente e ardente
esse que se perde um pouco
dentro da gente
vira pus
corrente
é indigente
procura canto
é vertente
derrama riso
lágrima
e em mim se tornou
urgente...

cris: 13:00

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Julho 20, 2004

Silêncios

Tenho procurado minhas palavras
elas andam escondidas
misturadas nos meus desejos
nas minhas ilusões
não consigo alinhá-las
só consigo senti-las

Algumas que tenho buscado
são aquelas quase depravadas
despudoradas...
as libidinosas!

Mas essas são agora
as mais difíceis de encontrar
por que elas estão no meu corpo
coladas nos vãos entre meus poros
só as percebo quando te vejo
e mesmo assim não consigo retê-las
por mais de um segundo
pois aí o brilho do teu olhar me cala...

Outras que têm me faltado
são as da impaciência
elas foram banidas de mim
só me resta a resignação...
uma virtude!

Então te espero
e espero as tuas palavras
que são densas e doces
o que me cala ainda mais...

Algumas surgem de repente
e me surpreendem
são aquelas do encontro
aquelas que fixam os riscos
a hora e o lugar...
imprudentes e ansiosas!

Tenho procurado minhas palavras
elas andam arredias
mas algumas eu consegui guardar
no dia em que te conheci
naquele dia eu descobri
que você ia me deixar assim...
sem palavras!

Então por pura precaução
guardei algumas importantes
para os momentos de silêncio
as do esquecimento
e outras da coragem...
as que me protegerão!

cris: 18:29

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Julho 17, 2004

Devoto

Escondo no canto
do meu espanto
teu manto
teu quebranto
tua onipotência...

Quero crer!

Minhas virtudes transparentes
precisam de fundo
de margem
de compaixão...
Meus vícios libertinos
querem privação e jejum!
Minhas culpas evidentes
buscam calma
têm sede
derramam lágrimas
e pedem perdão...

Quero perseverança!

Quero acordar com o sol
Engolir ar
Deixar de lado a minha solidez
A minha certeza do nada
A minha capa ocidental
E a minha rara lucidez...

Chega de prova
de cota
de prosa
e de prozac

Procuro a saída da razão...

Quero encontrar
uns fracos
uns perdidos
uns condenados
um daqueles que não se entregou
que não fez acordo com terceiros
e que acreditou num outro dia...

Quero conjugar meu temor
a simplicidade deles
dos bem-aventurados
dos que ignorantes são
e que por dádiva
estão sãos e salvos
limpos
prontos para entrar
e viver
em qualquer paraíso...


religion - willian blake

cris: 00:17

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Julho 12, 2004

Porta-paz

Estou deixando
escorrer em mim
aquela sensação de anis
que a tua presença me dá

Estou guardando em mim
o delírio de absinto
que sinto quando ainda
te pressinto em mim

Leve e profundo era teu corpo no meu

Corredeiras
Labaredas
Palavras sem norte
me vêm
como presságio
como sorte
E ainda em mim
o sabor de Pastis
como nos dias em Paris
que não voltam mais

Estou fazendo em mim
um relicário
de coisas preciosas
de dias que já tive
sentada com você
em frente ao nada
tendo tudo
tendo o rio e a torre
as tuas mãos e teus olhos azulados

Catedrais
Vitrais
Lembranças
enchem minha taça de vin rouge
quero solitude
mas nunca vou te esquecer

Estou permitindo
em mim
a paz
o sossego
a saudade
das cidades
por onde andei
ao teu lado
no teu abraço
onde morava meu prazer

Estou retocando em mim
algumas paisagens
arrumando nossas antigas canções
e deixando refletir em mim
o que ficou de você
l'amour et le goût du marron glacé!

cris: 18:48

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Julho 9, 2004

Relatividades

Palavras desconhecidas
transbordam e vazam
sem que eu emita qualquer som
E pela minha boca
o silêncio toma uma forma circular
em freqüências desconhecidas
pela minha orelha
mas habitantes do meu coração
em solidão

Na sombra conto
os ciclos do sistema
dos nossos corpos em movimento
que se agita e faz mudar o rumo
da minha pele
quando te sinto ao meu redor...

Incógnitas misturam-se
aos meus traços retos de crayon
sem que eu possa deduzir a equação
o binômio de nós dois...

Pelos meus dedos
escorrem vetores em tantos sentidos
que perco a linha e a inclinação
da curva do nosso microcosmo
do nosso labirinto iluminado
pela velocidade da vida
constante e caótica
mas reluzente nas nossas
entranhas suculentas

Então te chamo
Vem
e me transporta pelo nosso vácuo
de abraços e beijos...

Vem
e me mostra a saída
a passagem escondida
entre as tuas dimensões primeiras
e nossa última jornada

Não há tanto a dizer
nem tanto a esperar
nesse tempo
onde tudo é relativo
e o nosso deleite absoluto

Vem e me prende no teu eixo
magneto das minhas vontades
me faz realidade
e aí ao teu lado
me leva
me acelera
e me conduz...

cris: 18:41

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Julho 6, 2004

Mescla

Misturada em mim
teu sabor de cassis
teu cheiro de anaïs
teus doces enfeitam
o meu céu da boca
festa e tumulto
no meu coração...

Camuflada de mim
teu olhar me risca
tua mão me marca
e desenha letras
perto do meu umbigo
Meu gosto no teu baton
tua língua dura
e teus dentes
aparam a minha dor
e deixam ardor na tua pele
nos teus poros
nos teus círculos...

Espalhada em mim
teus pelos
como linhas decoram
meu ventre
e teus dedos
como uma teia
me prendem em tuas nesgas
me amarram em teu viés
você meu revés...

Despejada em mim
teu sol em peixes
e teu ascendente de fogo
se esbaldam
entre meus astros
que trançam anéis
e revelam bordados
como beijos
como intervalos
irrespiráveis e sufocantes

Abrigada em mim
enrolada em meus novelos de lã
teu calor me protege
e na minha cama
tuas tramas laçam pontos
rendas e macramés
sobre as delicadas texturas
dos nossos corpos lisos
no linho de lençóis e alfazemas
sobre a superfície úmida
dos nossos corpos
reunidos
adormecidos
saciados...

cris: 18:22

...



carmim